A XXXI “Ideias em Movimento”
organizada pela Associação Marinha em Movimento (AMM) em parceria com a PASQ, dedicou-se ao tema dos Incêndios Florestais, um tema escolhido por ser pertinente para a Marinha Grande, face aos grandes incêndios que ali ocorreram em 2008 e 2017.
O debate, moderado por João Granja, da direção da AMM e piloto de helicóptero de combate a incêndios, sublinhou a necessidade de debater a prevenção e a resposta, notando que ainda existe “muito, muito trabalho a fazer” em Portugal neste campo. O painel de oradores incluiu três especialistas de renome: o engenheiro silvicultor Otávio Ferreira, ex-gestor da Mata Nacional de Leiria, o especialista em proteção civil Artur Granja, ex-responsável pelo Serviço Municipal de Proteção Civil da Marinha Grande, e a engenheira Andreia Rodrigues, investigadora da Universidade de Coimbra.
O Abandono Rural e a Intensidade do Fogo
Otávio Ferreira iniciou o debate ligando a violência dos incêndios ao movimento de desertificação e ao abandono das terras no interior do país, um problema que remonta à década de 60. Octávio Ferreira comparou concelhos, notando que Mação, que tinha mais população que a Marinha Grande em 1940, viu os seus habitantes diminuírem drasticamente, enquanto o concelho do litoral crescia. Este abandono rural traduz-se no aumento da carga de combustível e na ausência de áreas de descontinuidade, como as antigas culturas agrícolas, o que facilita a propagação de incêndios violentíssimos.
O especialista apresentou dados alarmantes: embora o número de ocorrências tenha baixado, o ano de 2025 (referindo-se ao ano anterior ao evento) registou uma inversão, com 8.300 ocorrências e uma área ardida de 270.000 hectares. Criticou o número persistentemente elevado de ignições, que em 2005 atingiu um pico de 40.000, afirmando que é nesta área que o problema tem de começar a ser resolvido. As principais causas investigadas pela GNR e pela Polícia Judiciária indicam que as causas dominantes são o descuido das pessoas em atividades agrícolas e florestais (somando 44% com as causas acidentais), e não primariamente o incendiarismo (que representa 34% das causas em 2024).
A Vulnerabilidade da Mata Nacional e a Investigação
Artur Granja, responsável pelo Serviço Municipal de Proteção Civil da Marinha Grande durante vários anos, destacou a sua experiência no incêndio de 2017. O especialista relatou a velocidade assustadora com que o fogo, vindo da Brunhosa, entrou na Mata Nacional de Leiria, galgando rapidamente a estrada e, em 15 minutos, tornando-se incontrolável, devido às projeções e ao vento forte.
Granja sublinhou a importância de sensibilizar a sociedade, nomeadamente nas escolas, para que “não se possa esquecer nunca aquilo que aconteceu”. No campo da investigação, Artur Granja defendeu a preservação dos vestígios como fundamental para se apurar se a origem do fogo foi negligência ou crime, e para as companhias de seguro determinarem as responsabilidades. Deu exemplos de investigações bem-sucedidas que envolveram a recolha de etiquetas de compra de velas usadas em atos de bruxaria na Mata Nacional e a identificação de um incendiário através do registo de rastos de pneus de mota e sapatilhas.
Incêndios: Um Problema Social e o Foco nas Pessoas
A engenheira Andreia Rodrigues definiu o problema dos incêndios em Portugal como “puramente social”, sustentando que “são as pessoas” que estão na base de todos os fatores de risco. A investigadora alertou que os incêndios estão a evoluir, tornando-se “cada vez mais rápidos e intensos” e aproximando-se das áreas de habitação.
Criticou a ineficácia do combate quando os bombeiros são forçados a proteger as habitações em vez de combaterem o incêndio, uma situação que ocorre porque os proprietários não cumprem a limpeza da envolvente. Referiu que a maioria das vítimas civis (em eventos como junho e outubro de 2017) morre no processo de fuga, tentando proteger os seus bens ou regressar a casa.
A especialista defendeu que a chave está na antecipação e na formação das comunidades, com a criação de planos de emergência que devem ser adaptados a cada aglomerado populacional. A intervenção deve basear-se na proximidade, sendo os presidentes de junta os mais indicados para conhecer a dinâmica local e envolver a população. A implementação de programas como “Aldeia Segura Pessoas Seguras” não funciona se não for feita com humildade e se não integrar a população na implementação das medidas.
Houve um consenso entre os oradores sobre a necessidade urgente de descentralizar a gestão e de mudar o paradigma, investindo na prevenção antes do combate. Otávio Ferreira referiu que a gestão da floresta pública, nomeadamente na Mata Nacional de Leiria, está a ser mal feita, com a ausência de pessoal técnico e orçamento. Defendeu a criação de faixas de gestão de combustível e a realização de fogo controlado como formas de resolver a descontinuidade da vegetação.
Artur Granja vincou que o Estado tem de assumir a despesa de proteger as aldeias, assegurando a segurança estrutural das povoações, libertando assim os bombeiros para o combate real.
Os incêndios florestais em Portugal são como uma doença crónica no corpo social. Não basta tratar os sintomas (o combate ao fogo), mas é preciso curar a raiz da doença (o abandono rural e a negligência na prevenção) através de “vitaminas” locais e personalizadas de gestão do território e de envolvimento comunitário.
Consenso e o Prémio Cidadania
A conferência anual encerrou com a atribuição do Prémio PASQ Cidadania 2025 a Drª Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Jonet recebeu o prémio em nome dos voluntários da instituição, que contribui para alimentar 4% da população portuguesa (400.000 pessoas). A galardoada realçou que 80% das 120 toneladas de comida distribuídas diariamente pelos bancos alimentares seriam desperdiçadas por razões comerciais. O prémio reconheceu a sua vida dedicada a ajudar as pessoas que mais necessitam e que não se conseguem defender, um trabalho meritório que dignifica a sociedade civil.




